Vozes

O texto possui conteúdo e linguagem que podem ser considerados ofensivos.

“Você quer se matar?”

Eles perguntam.

Você tem que excluir a conta do facebook, apagar o twitter, parar de atender o telefone e responder e-mails, parar de dar as caras por várias semanas, e então, só então, eles  vem e pergunta se você está bem. Se está pensando em pular de algum lugar, colocar um pedaço de lençol em volta do pescoço, passar gilete nos pulsos, tomar um pouco mais de comprimidos do que é necessário.

A mesma pergunta.

“Você quer se matar?”

Por quê?

Porque você não pode pensar em me matar. Se você pensa sobre socar o médico, tudo bem. Se você pensa sobre cortar o rabo do gato, ótimo. Se você pensa em violentar uma jovem em idade pré-escolar com uma tesoura, PERFEITO!
Você só não pode pensar sobre se matar.

É assim que funciona.

É assim que as pessoas são.

Perguntam porque você pensa esse tipo de coisa.

São idiotas.

Você não quer estar sozinha.

Mas também não deve ficar cercada de gente imunda.

Sem Título #002

Era um sonho meio bonito quando me encontrei caminhando por uma rua num dia nublado.

O corpo pesado, talvez da alma que já não podia mais suportar.

Todo mundo estava ali, mas não havia ninguém.

Caminhava sem rumo para um lugar perdido dentro de mim. O vento parecia tentar me impedir.

O Ar, esse também estava pesado, e eu me vi fazendo questão de respirar até o fim, apenas para sentir o alivio de poder o colocar para fora, e nisso, era quase como se eu pudesse ver o negro de minhas gerações impregnado ali.

E caminhava, ainda que tivesse total conciência de que de nada valia, onde quer que eu estivesse, não seria ali meu lugar.

Talvez caminhasse guiado pela tortura da curiosidade de saber quantos lugares não podiam ser o “meu lugar”.

Sem Título #001

Quando eu era pequeno, uma criança de uns 7 anos, por algumas semanas eu fiquei com muito medo de dormir sozinho. Eu corria para a cama da minha mãe toda noite.

Uma dessas noites, ela me olhou nos olhos e perguntou do que eu tinha medo.

Eu não pude responder, eu não sabia a resposta. Eu não sabia o que eu temia.

Mas isso não é importante aqui. Não é o que eu temia. É sobre como a forma que ela perguntou aquilo me fez sentir seguro.

Hoje, depois de anos e anos, eu entendo que minha vida toda estive caçando esse sentimento de segurança, tentando senti-lo novamente.

Achar alguém que me perguntasse sinceramente “O que está errado?”, “Do que você tem medo?”

A Prisão


Hoje quando eu acordei eu pesava 500 quilos.

Tentei me levantar mas não consegui, sequer me movia de alguma forma.

Senti-me instantaneamente aprisionada aquela cama. Já não conseguia me imaginar lá fora. Lembrei-me com dificuldade de momentos que estive fora dela.

Percebi que aquilo tudo estava perdido.

Que eu já não pertencia aquele mundo, ao mundo fora dessa cama.

Primeiramente, tornei-me desesperada enquanto lágrimas corriam dos meus olhos para o travesseiro branco. Aos poucos pude me acalmar tentando aceitar meu destino de ficar eternamente presa aquela cama.

Encontrei felicidade no pensamento de que a fome e a sede logo acabariam com aquele sofrimento.

Manchas

Hoje eu acordei e fui ao banheiro.

Precisava me lavar.

Fiquei meia hora no chuveiro, esfregando a esponja com força nos meus braços, nas minhas costas, minhas pernas e em meu rosto. No meu peito. Saí do banho e ainda molhado abri o armário por traz do espelho, peguei o cortador de unhas e me sentei sobre a tampa do vaso sanitário.

Cortei bem rente as unhas das mãos, e em seguida as de ambos os pés.

Depois me levantei, e do mesmo armário retirei minha escova de dentes e a pasta. Me pus a escovar os dentes, com aquela mesma força, em tantas direções quanto possível até que terminei, não sem antes bochechar um tanto de enxaguante bucal. Sempre achei aquela cor azul muito bonita.

Voltei então para o quarto e arranquei as cobertas de cima da cama, as jogando num canto do quarto.

Do meu armário tirei lençóis novos e limpos, as quais usei para forrar novamente a cama.

Troquei também a fronha de meu travesseiro.

Por fim, deitei com a intenção de dormir, usando um cobertor branco e fino para me cobrir.