Lembrei, falava-me sobre o posso no campo. Eu não saberia dizer realmente se esse poço existiu. Talvez não passasse de uma imagem ou símbolo, mero fruto de sua imaginação, tal qual inúmeras outras criações de sua mente naqueles dias sombrios. Todavia, após ouvir sua história, tornei-me incapaz de relembrar a imagem da pradaria sem associá-la invariavelmente a imagem de um poço. Na realidade, em minha mente a imagem do poço que eu nunca vira formava parte indissociável da paisagem. Eu não teria dificuldade em descrever suas características em todos os pormenores. O poço ficava exatamente na divisa onde terminava a pradaria e começava o bosque. A grama cobria o buraco escuro de apenas um metro de diâmetro aberto na terra, escondendo-o engenhosamente. Não havia cercas ou contornos mais elevados de pedra ao seu redor. Era um mero buraco abrindo sua boca. Expostas às intempéries, as pedras da beirada haviam adquirido uma coloração branca estranhamente turva. Apresentavam rachaduras e falhas em alguns pontos. Podiam-se ver uma lagartixa esverdeada esgueirando por uma fenda entre elas. Mesmo tentando me curvar para ver o interior do buraco, eu nada enxergava. Deduzia apenas que era pavorosamente profundo. De uma fundura além da imaginação. E em seu interior, a escuridão comprima-se a tal densidade que como se todos os tipos de escuridão existentes no mundo houvessem sido destilados até o ultimo grau.
- Garanto que é muito fundo, muito fundo mesmo.- disse Naoko escolhendo cuidadosamente as palavras. Às vezes ela se expressava desse jeito. Falava pausadamente buscando as palavras certas.- É fundo mesmo, mas ninguém sabe onde fica. É certo que fica em algum lugar aqui por perto. Continue lendo





