Trecho de Norwegian Wood, de autoria de Haruki Murakami

Sobre o que mesmo ela falava?

Lembrei, falava-me sobre o posso no campo. Eu não saberia dizer realmente se esse poço existiu. Talvez não passasse de uma imagem ou símbolo, mero fruto de sua imaginação, tal qual inúmeras outras criações de sua mente naqueles dias sombrios. Todavia, após ouvir sua história, tornei-me incapaz de relembrar a imagem da pradaria sem associá-la invariavelmente a imagem de um poço. Na realidade, em minha mente a imagem do poço que eu nunca vira formava parte indissociável da paisagem. Eu não teria dificuldade em descrever suas características em todos os pormenores. O poço ficava exatamente na divisa onde terminava a pradaria e começava o bosque. A grama cobria o buraco escuro de apenas um metro de diâmetro aberto na terra, escondendo-o engenhosamente. Não havia cercas ou contornos mais elevados de pedra ao seu redor. Era um mero buraco abrindo sua boca. Expostas às intempéries, as pedras da beirada haviam adquirido uma coloração branca estranhamente turva. Apresentavam rachaduras e falhas em alguns pontos. Podiam-se ver uma lagartixa esverdeada esgueirando por uma fenda entre elas. Mesmo tentando me curvar para ver o interior do buraco, eu nada enxergava. Deduzia apenas que era pavorosamente profundo. De uma fundura além da imaginação. E em seu interior, a escuridão comprima-se a tal densidade que como se todos os tipos de escuridão existentes no mundo houvessem sido destilados até o ultimo grau.

- Garanto que é muito fundo, muito fundo mesmo.- disse Naoko escolhendo cuidadosamente as palavras. Às vezes ela se expressava desse jeito. Falava pausadamente buscando as palavras certas.- É fundo mesmo, mas ninguém sabe onde fica. É certo que fica em algum lugar aqui por perto. Continue lendo

Conto do Livro Assombro de Chuck Palahniuk

Faca

Colocação de Produtos

Um conto por Cozinheiro Assassino

Ao Senhor Kenneth MacArthur

Gerente da Corporate Communications

Kutting-Blok Knife Products, Inc.

Prezado Senhor MacArthut,

Só para esclarecer, vocês fabricam uma faca maravilhosa. Uma faca excelente.

O trabalho numa cozinha profissional já é duro, por si só, para ainda ser feito com facas ruins. Um Allumette de batata perfeito precisa ser mais fino que um lápis. Um corte de cheveu perfeito tem mais ou menos a grossura de um arame, ou seja, metade da grossura de uma batata frita. A gente ganha a vida cortando cenouras à brunoisette com as caçarolas sauté já a espera com manteiga quente, e ouvindo berros que pedem batata à minunette. Quem passa por isso logo aprende a diferença entre uma faca ruim e uma Kutting-Blok.

Eu tenho muitas histórias para contar a vocês. As suas facas vivem salvando o meu rabo.Só quem passa oito horas cortando endívias belgas pode entender o tipo de vida que levo. Ler mais

Capítulo 23 Do Guia do Mochileiro das Galáxias

Toalha

Guia do Mochileiro das Galáxias – Douglas Adams

Capítulo 23

É  um fato importante e de conhecimento de todos que as coisas nem sempre são o que parecem ser. Por exemplo, no paneta Terra os homens sempre se consideraram mais inteligentes que os golfinhos, porque haviam criado tanta coisa – a roda, Nova York, as guerras, etc. – , enquanto os golfinhos só sabiam nadar e se divertir. Porém, os golfinhos, por sua vez, sempre se acharam mais inteligentes que os homens – exatamente pelos mesmos motivos.

Curiosamente, há muito que os golfinhos sabiam da iminente destruição do planeta, e faziam de tudo para alertar a humanidade; porem suas tentativas de comunicação eram geralmente interpretadas como gestos lúdicos com o objetivo de rebater uma bola ou pedir comida, e por isso eles acabaram desistindo e abandonaram a Terra por seus próprios meios antes que os vorgons chegassem.

A derradeira mensagem dos golfinhos foi entendida como uma tentativa extraordinariamente sofisticada de dar uma cambalhota dupla para trás assobiando o hino nacional dos Estados Unidos, mas na verdade o significado era:

Até mais, e obrigado pelos peixes.

Na verdade havia no planeta uma única espécie mais inteligente que os golfinhos, que passava boa parte do tempo nos laboratórios de pesquisa de comportamento, correndo atrás de rodas e realizando experiências incrivelmente elegantes e sutis com seres humanos. O fato de que mais uma vez os humanos interpretaram seu relacionamento com essas criaturas de modo totalmente errado era exatamente o que estava nos planos elaborados por elas.

O Complexo

Solidão
Bem, percebi que bastante do trafego do blog acaba vindo dos mecanismos de busca.
Acontece que tem bastante gente querendo saber que diabos é esse tal de complexo de Cassandra, e eu mesmo dei uma volta e não achei nenhuma informação boa em português.
Longe de eu querer dizer que minha explicação será boa, mas vou tentar levantar as coisas básicas, que eu acho que as pessoas devam ter. Mais tarde eu completo ela.

Vamos começar pela personagem e pelo mito. Devo dizer que ela é minha personagem preferida e pela qual tenho um carinho bastante especial.
Cassandra era uma Troiana, filha de Príamo, e irmã de Heitor e Paris. Apolo, o deus sol, era apaixonado por Cassandra, e deu-lhe como presente, o dom de antever o futuro. Cassandra ainda assim não aceitou deitar-se com Apolo, que em fúria, laçou sobre ela uma maldição. Daquele momento em diante, ninguém acreditaria em nenhuma de suas previsões. Assim, Cassandra prevê a queda de Troia, a morte de seu irmão e pai, sem poder fazer nada para impedir isso.
Cassandra se torna aquela que prevê o sofrimento, que sofre duas vezes.
E num ato final, ela prevê a própria morte, mas permite que ela aconteça para que possa no final da vida realizar seu ato de vingança contra Agamenon, aquele que foi um dos responsáveis pela queda de Tróia. Ler mais

Poema do Livro Assombro de Chuck Palahniuk

Menina na Cama

Linguagem e temas no texto podem ser considerados ofensivos.

Expectativa

Um poema sobre a Camarada Quimera

-Eu perdi minha virgindade pelo ouvido- diz a Camarada Quimera
Ela era tão jovem que ainda acreditava em papai Noel.

A Camarada Quimera esta no palco, com os punhos nos quadris
E os braços dobrados,
Projetando os revestimentos de couro nos cotovelos.
Os coturnos com bico de aço e cadarços estão bem plantados.
As pernas estão cobertas por folgadas calças camufladas,
Amarradas nos tornozelos.
Ela se inclina tanto à frente que seu queixo faz sobre a
Frente do casaco verde-oliva, sobra militar. Ler mais