O momento que você acorda de um desmaio é um momento muito especial. Por alguns momentos você esteve completamente desligado de si, Seu corpo preocupava-se somente em manter as funções mais básicas à sua sobrevivência. Então você liga novamente. Não, não é uma coisa súbita, é mais como se os interruptores de cada função fossem ligados aos poucos, um por um.
O primeiro sentido que você recobra é a audição. Você faz isso de fora pra dentro, começa ouvindo o som do seu coração batendo, e então ruídos próximos, para só por fim ouvir os barulhos altos que dominam o ambiente.
Depois você abre os olhos. Num primeiro momento, tudo que você vê são borrões, para gradualmente enxergar os detalhes das coisas. Como se fosse uma evolução de um quadro impressionista de Monet que aos poucos vai se aproximando mais e mais da realidade, ainda que a sensação de sonho se mantenha presente.
Então você recobra o tato. Consegue sentir seu corpo inteiro doer. Ao mesmo tempo, sente um gosto amargo na boca.
E assim você recobra todos os seus sentidos. Você faz isso assimilando o ambiente. O seu corpo quer saber onde você está. Você só pode se perguntar como chegou ali depois de saber onde está.
Assim, escutando sirenes, buzinas, vozes, você conclui que está muito próximo de um lugar movimentado, ainda que exista um hiato entre você e todos esses barulhos. Olhando ao redor você vê que está num canto sujo qualquer, algo parecido com um beco. Você olha uma mancha vermelha na parede, e sentindo a sua cabeça latejar, percebe que bateu a cabeça quando caiu.
Você já concluiu onde está. Também concluiu que está ferido, mas não vai procurar ajuda. Está seguindo as etapas que seu próprio cérebro estabeleceu, logo, está agora tentando entender como chegou até ali e o que aconteceu.
As coisas vêm a sua cabeça como num filme do Tarantino. Uma cena de você saindo do trabalho, outra de você encontrando um homem num beco, outra do homem apontando um revolver para você, outra de você tremendo e suando como um porco na mira do revolver, e por fim, uma de você decidindo seguir pelo beco porque, essa cena não está muito integra ainda.
O homem não lhe feriu, ele apenas lhe ameaçou. Claramente você fez o machucado na cabeça caindo e batendo com ela ali no chão. Ele não lhe empurrou, você só caiu. Você sentiu tanto medo que apagou, foi isso. Você olhou bem no cano do revolver, foi observando os detalhes, entrando por aquele túnel negro até que tudo mais ficou negro. Então você acorda jogado ali. Sei lá quanto tempo se passou.
Você não esperava sentir tanto medo. É estranho porque, de certa forma, você queria isso, você sempre quis ser desafiado, sempre quis estar numa situação assim. Em muitos momentos você chegou a concluir que sua vida não valia, que não tinha o que temer porque não havia nada a perder, você chegou a idealizar um fim. Mas quando a imposição, quando a possibilidade imposta do fim surgiu, você não lutou, você fugiu.
Você pegou o caminho do beco esperando uma coisa qualquer para a qual você não estava realmente preparado.
Você não sabe se isso realmente é uma coisa boa, mas o medo é uma prova de que ainda existe uma vontade de viver em você.
Então você levanta e vai procurar ajuda.


desmaiar é bizarro e bom. porque antes parece tão desesperador, aqueles segundos que parecem horas e você suando frio, percebendo seu corpo cansado, enquanto o que você mais quer fazer é deitar.
mas eu gostei do texto. Podia estar mais descritivo.
:*
Eu gostei do texto, bem conciso e com uma narrativa que eu considero rara. Descrever as coisas em segunda pessoa talvez necessite de um teor descritivo maior, apelando para o sensível, mas não há nada de erro com este aqui. Pelo contrário, pode ser uma aula para quem busca melhorar suas habilidades com a escrita! Continue na luta, amigo. Abraço!
Obrigado. Vou continuar.
Depois de acordar, levantar e procurar ajuda. Momentos de ausência de si, o corpo desconectado do ser, e após tudo isso, cada mínima sinapse feita é um sopro de vida. O corpo é a casa do sentir.
Já passei muito por isso.