
Um pouco que incentivado pelo Bruno Iha, resolvi fazer um post sobre meu processo criativo para escrever, acrescentando um “tutorial” que vai servir muito mais como uma orientação.
Existem muitos modos de escrever, e nenhum deles é o modo correto, embora alguns sejam mais comuns e de mais fácil assimilação, por qualquer que seja o motivo. Muitos autores dizem criar obras do nada, enquanto outros assumem um processo criativo. Eu pessoalmente sigo esse lado e vejo escrever como fazer uma escultura em madeira, só que com uma liberdade maior. Você tem uma imagem inicial do seu desejo para o fim do texto, dá uma forma rústica num primeiro momento, e então vai detalhando essa forma até atingir a imagem ideal imaginada, podendo ser mais ou menos detalhada que a ideia do inicio. A liberdade que coloquei ali vem do fato de que muitas vezes o texto corre sozinho para um lugar diferente, e isso geralmente acabada sendo melhor e dando mais resultado que sua imagem inicial. Isso aconteceu com muitos textos meus. Um texto que coloco entre um dos meus melhores era na verdade uma entrada de diário onde eu reclamava de festas. Os dois primeiros parágrafos apresentam exatamente minha opinião sobre festas.
Meu mantra para escrever é “Escreva alcoolizado, edite sóbrio”
A frase é do escritor que escreveu o conto mais incrível que já li, e explica bem a ideia de que você deve escrever, simplesmente escrever, deixar a imaginação rolar, curtir o que está fazendo, e só depois, arrumar qualquer coisa, corrigir os erros.
Resumindo tudo isso, chegamos ao processo criativo clássico de 4* etapas, que define muito bem como escrevo meus textos.
Acrescento que o processo não é linear, de modo que o autor muitas vezes viaja entre as etapas, por exemplo, rascunhando uma nova parte do texto durante a edição, ou pesquisando coisas para acrescentar ao rascunho.
I♦ Pré-escrita
II♦ Rascunho
III♦ Edição/ Revisão
IV♦ Publicação
*Algumas pessoas separam o item 3 em dois, edição da estrutura e escrita do texto, e revisão ortográfica e formatação.I – Pré-escrita
A pré-escrita envolve muita coisa que você está fazendo quando não está escrevendo. Isso inclui as referências que recebemos, conscientemente ou não. Livros, filmes, idéias que surgem na cabeça e que podemos ficar desenvolvendo um longo tempo antes de passar pro papel.
Eu geralmente penso em frases, personagens, lugares, eventos e cenas, e os anoto sem intenção alguma de escrever uma história com eles. Raramente me preocupo em desenvolver essas idéias na hora de origem. Tenho um caderno cheio só com esses pequenos fragmentos. A maioria das coisas não presta pra nada, mas uma ou outra coisa se salva, e algumas são ouro.
Uma coisa que faço muito é escrever essas frases que penso em inglês. É um vício particular meu, mas tem um sentido, que não é proibir os outros de ler, como muita gente pensa. O motivo real é que escrevendo em inglês, quando tenho que passar a frase para um contexto novo, eu não simplesmente reproduzo ela, eu busco outras palavras que passem melhor o significado e a ideia que a frase precisa naquele contexto.
Um dia simplesmente se une informação suficiente para criar algo, ou eu penso em algo que pode ser completado com coisas presentes no caderno, e é assim que eu vou para o próximo passo. Em algum momento sua ideia vai tomar forma e em algum momento sua ideia vai começar a ficar grande demais para manter na cabeça. Esse é o ponto de transição da pré-escrita para o rascunho.
II – Rascunho
Tendo a ideia, e um conjunto de adornos para enfeitar minha ideia, eu começo a escrever. Eu realmente escrevo muito rápido, corrijo muito pouco, às vezes deixo de seguir cronologia nessa hora, e me repito muito.
Sou extremamente desleixado, mas na maioria das vezes concluo o rascunho se começo a escrevê-lo. Existem casos sim onde eu não termino. Nesse caso deixo algumas notas escritas no final do texto, e volto a mexer nele outra hora, dando uma relida rápida no texto apenas para retomar um ritmo. Evito editar nessa hora a menos que seja um elemento muito importante que mude o sentido da história.
Escreva até ter uma ideia concluída, mesmo que porcamente. Escreva até ter uma mancha escrita larga na folha. Eu escrevo muito no rascunho, uma vez que corto muita coisa depois, aconselho à fazer o mesmo.
III – Edição
É importante ter um rascunho porque isso tira o medo da página branca. Por pior que fique o rascunho, ele lhe dá a segurança de já ter uma ideia pronta, e uma linha guia, que pode ou não ser seguida.
Editar não é somente cortar palavras repetidas, mudar ordem dos parágrafos, e concertar erros, é um processo de rascunhar novas coisas também, reforçar as idéias do texto, e omitir aquilo que desfoca ou torna o texto confuso.
É pra mim a melhor parte, porque é onde aprofundo e remodelo as idéias, e me aproximo mais do produto final. Eu sou uma pessoa muito detalhista, gosto dessas coisas.
Aconselho nesse momento que se dedique primeiramente à estrutura do texto, e só depois, a buscar erros gramaticais ou de forma. Até hoje encontro esse tipo de erros em textos meus, e eu me sinto bem livre para corrigir eles quando os vejo.
Vou aprofundar especificamente meu modo de edição mais adiante.
IV – Publicação
Depois de dar voltas e mais voltas, depois de ter certeza que o determinado texto é seu produto final, você publica ele, no seu blog, ou em outro lugar.
Eu determino isso como o fim mesmo. É extremamente raro, depois de concluir um texto e tornar ele publico, que eu edite alguma coisa relativa ao sentido ou estrutura do texto. É muito mais uma coisa chata minha. Acho que se você acredita que dá pra melhorar, é bom fazer. Eu, eu sou um maluco obsessivo.
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Depois dessa visão geral, vou me aprofundar somente na forma como escrevo e edito meus textos.
A maior parte do que escrevo são contos, apesar de ter duas histórias maiores em desenvolvimento. Vamos para esse texto definir que conto é qualquer coisa que você possa ler de uma só vez, sem maiores problemas, em cinco, vinte minutos, até uma hora. Isso vai soar feio, mas em geral quando eu leio livros eu não conto o número de dias que eu demoro para ler, e sim “sentadas”, que seriam as vezes que eu sento e paro para ler o livro. Eu diria então que um conto é qualquer coisa que você possa ler numa só “sentada”.
Acho escrever contos um tanto mais complicado que escrever romances. Não quero dizer que escrever um romance é fácil, mas ao escrever um romance você acaba por ter muito mais espaço para desenvolver personagem e prender o leitor, coisas que tem que ser feitas para que o texto tenha algum impacto e fique bem marcado para o leitor. Já num conto, você está lutando contra o tempo, você tem que apresentar uma situação, apresentar personagens, concluir a situação, tudo isso muito rápido, e sem confundir o leitor ou deixar ele desinteressado.
Minha primeira preocupação ao chegar no fim do rascunho é procurar o motivo do texto. É muito comum para mim escrever um texto que foge a ideia inicial. Por isso sempre releio todos os rascunhos e tento descobrir porque os escrevi, o que eu queria passar. Às vezes é fácil achar essa informação, outras vezes ela está muito mergulhada no texto, e confesso que tem vezes que me pergunto se realmente existe motivo.
Eu entendo que nem tudo precise de motivo. Eu leio muita coisa que não tem motivo, e gosto, mas para os meus textos essa falta de motivo é uma coisa que busco muito evitar. Ah, algumas vezes eu acho mais de um motivo, mas evito ter que trabalhar com mais de um deles no mesmo texto.
O motivo é extremamente importante para mim, porque é a base onde o texto foi construído. Essa informação diz que tipo de material você deve acrescentar ou retirar do seu texto para que ele funcione bem em cima daquele motivo. Se um texto tem um motivo depressivo, eu busco deixar o resto do texto estruturalmente de acordo com isso. ( Sendo que existe um livro que faz exatamente o oposto disso)
Pegando por exemplo esse texto.
Ele tem como principal tema um sentimento de morte, de estar se desgarrando da vida.
Na escrita dele eu evito a presença de cores, tento deixar a narrativa lenta, e repetir isso numa forma de agir lenta do próprio protagonista. Isso tudo reforça um tema negativo.
Além disso eu faço um eco de uma situação dentro do texto, que reforça a ideia subjetivamente. O homem se separando do contato com o mundo, que se representa bem na mulher. Uma outra situação de separação acontece dentro do texto, formando um eco com essa situação maior, e é a relação da unha podre com o resto do corpo.
A unha representa tanto o homem que é mencionado que ele olha para ela de forma diferente, como se isso fosse fazer ela melhorar. Esse mesmo evento ocorre com o modo como a mulher olha para o homem em determinado momento do texto.
Esse é outro ponto extremamente importante pra mim. Como já falei, num conto o tempo é um adversário. Uma coisa que prezo muito nos meus textos é que sejam fluidos e leves. Eu procuro achar um motivo de existência para cada situação, mais que isso, procuro unir motivos. Tento escrever de forma que, por exemplo, um evento não só mova o conto pra frente, mas descreva também a personalidade de uma personagem. Uma frase velha de alguém já diz que um bom escritor é aquele que diz muito com pouco.
Mais uma coisa, o motivo não precisa estar presente no momento. Isso é uma ferramenta que eu acho indispensável de se ter, e uso sempre. Explicando melhor, uma coisa pode acontecer agora no texto, e só ganhar significado no final do texto. Isso faz com que o texto pareça redondo, conectado, dá uma boa impressão ao leitor.
Um texto que exemplifica muito bem é esse.
Uma camisa é tirada no começo do texto molhada, apenas para ser destruída no final do texto, “confirmando” a visão do protagonista sobre a malvadeza dos felinos apresentados.
Naquele texto das festas já mencionado eu uso o mesmo. Fernanda bebe várias bebidas, e ao mesmo tempo que isso contribuí bastante para formar a imagem da personagem na cabeça, isso leva a uma conclusão onde ela está bêbada e faz uma afirmação importante para o personagem, que logo depois se confirma verdade( de certa forma), provando que a Fernanda realmente está (quase) sempre certa quanto a tudo.
Fica redondo e eu gosto.
Aconselho de verdade, releia o texto, procure pontas soltas e coisas que você possa reaproveitar dentro do texto. Se der, faça várias delas refletirem no final ao mesmo tempo.
Feito tudo isso, chegamos na parte que geralmente conclui o texto. Cortar o desnecessário.
Contos geralmente começam no meio de uma situação. Tento construir eles de forma que o leitor possa imaginar o que aconteceu antes e o que acontece depois do conto. Eu tento dar informação suficiente apenas para isso. A maior parte do que eu escrevo tem final aberto. O que você não deve saber é que eu muitas vezes determino e escrevo final, e depois corto até uma parte do texto onde o leitor por si só possa concluir o final, tendo que pensar um pouco claro.
Faço o mesmo com os personagens, de forma que com um conjunto mínimo de informações, você possa formar a imagem de quem eles são.
Bem, essa é minha receita. Eu nem sempre sigo ela à risca, mas tudo gira em torno dessas idéias. Se você chegou até aqui, por favor me dê um comentário sobre o meu ou o seu método, ou alguma coisa que eu possa testar, eu ficaria bastante feliz com isso.
É isso
P.s.: Ainda estou fazendo uma análise mais profunda dos meus textos, assim que terminar eu posto mais alguma informação aqui.
P.s.2: Mais adiante vou escrever um artigo sobre escrita minimalista. Fique de olho no blog se tiver interesse.

Eu acho que vou ser a primeira a dar algum tipo de comentário. Eu, na verdade, admiro muito a sua forma de desenvolver as historias e principalmente o modo como vai articulando as frases. Eu não sei dizer o por que, eu só gosto.
Eu fiquei muito mal ontem quando exclui o meu blog, por achar que aquela porcaria não estava fazendo bem a mim, de acordo com as coisas da minha vida pessoal, e hoje, ví, bem alí, na barra lateral, uma foto minha e o link do blog, que já não existe mais. Pois bem, não posso voltar atrás e só peço desculpas por ter dado o trabalho de colocar o link lá e ele não existir mais. Mas ao mesmo tempo, me sinto feliz, porque é uma honra ter o meu link aqui. Se é que você me entende.
Bem, depois de ter lido esse post, vou confessar que eu também tenho um caderno com anotações, mas, em sua maioria, são trechos e frases de livros ou contos, e é isso que dá as ideias para eu escrever alguma coisa que preste.
O modo como eu escrevo é bem simples e acho que todo mundo segue esse mesmo padrão, ir escrevendo e só. Se der vontade de parar você para, de amassar e jogar tudo fora, você amassa e joga tudo fora. Eu acho que é assim, mas vou analisar isso com mais atenção.
Bem, tenha um bom domingo.
Obrigado pelo comentário.
É uma pena que tenha apagado seu blog :/ Mas acredito que tenha tido um bom motivo. Vou deixar o link guardado, quem sabe algum dia não revivo ele.
Eu entendo seu padrão, e vejo muita gente fazendo. Era o padrão que eu usava para desenhar(coisa que faço raramente agora). Parecei de usar porque não funcionava completamente para mim. Acaba sendo algo que fica muito dependente de humor. Eu prefiro poder escrever independente do meu modo e poder trabalhar bem no que eu escrevo.
No fim o humor acaba influenciando de qualquer forma, mas acho importante fazer isso porque tem textos meus que eu odiei o produto final no dia de escrever, mas que depois achei o valor.
Fique bem Fernanda, beijo.
Eu adoraria ler comentários seus sobre seus textos. Não precisa ser escancarado, pois creio que muitos textos são estruturados a permitirem a liberdade do leitor para interpretar, mas ainda assim sinto uma curiosidade grande de como é por trás das telas. Lembrei de um escultor que falou que apenas libertava os seres que estavam dentro do mármore.
Eu notei que é muito fácil se identificar com os seus textos. Tem uma garota qu comentou sobr como você fala exatamente o qu ela pensa.
Se por um lado isso mostra como você sabe capturar aquilo que afeta os outros, por outro é uma armadilha que você pode cair.
Eu me vejo muito naquele texto do cara com a menina. Eu sei bem como é ter essa vontade de morrer e não saber explicar os motivos, mas e daí?! O texto termina e não acrescenta nenhuma perspectiva nova. É como se eu pudesse ver um reflexo de mim mesma, e por mais que eu pareça mais bonita nesse reflexo, já estou de saco cheio de mim mesma.
Você fica me fazendo reviver nossas questões mas não acrescenta muito de novo.
Lhe falta isso, uma conclusão qu clareie as questões, para fazer com que a pessoa qu começou a ler o texto termine outra pessoa.
E não é que eu não gostasse de ler. Eu amei seu último conto,e também aquele sobre as duas garotas. Eles me levam a conclusões que não são tão obvias. Queria ler mais coisa nesse estilo vindo de você.
Eu gostei muito da sua crítica. Acho que tenho bastante ideia de quem é, apesar de não poder ter certeza.
Eu realmente queria buscar isso, mas é complicado. Talvez eu escreva mesmo sobre o que me perturba, buscando mesmo respostas, por isso não dá pra eu passar elas.
É muito difícil mudar o ponto de vista de outra pessoa, e também não sei se é uma coisa certa.
Bem, vou procurar seguir sua dica, vou me esforçar um tanto.
não tem coisa certa.
Se a pessoa lê e é motivada a mudança é porque ela já tem o potencial para mudança dentro dela.
Sou a Paula sim. Sei que nunca comentei. Achei que você ia se incomodar. Ainda assim li tudo seu.
Até ia fazer um comentário mais pessoal.
Pode fazer, qualquer coisa eu apago ele.
Não é o trabalho do artista dar boas conclusões ao expectador, para que ele se transforme numa pessoa melhor.
O trabalho do artista é simplesmente criar coisas belas.
A sua vida é problema seu.