
O meu pai, bem, ele foi um filho da puta até o momento da morte.
Não posso dizer que ele nunca me ensinou nada, a lição mais importante sobre a vida que aprendi, foi justamente por causa dele.
Quando eu era ainda bem jovem, menos de cinco anos, minha mãe morreu. Eu não me lembro bem dela, não posso dizer que meu pai era uma pessoa completamente diferente antes da morte dela. Não posso, não é como nos filmes.
Quando eu fiz dez anos, meu pai me chamou na sala, perto de sua poltrona preferida. Ele amava aquela poltrona, ele lia o jornal e fumava seus cigarros todos os dias. Ninguém sequer se aproximava daquela poltrona. Eu fui feliz àquele encontro.
Ele olhou nos meus olhos, então me pegou no colo, uma das poucas vezes que fez isso durante toda minha vida.
– Menino…- ele começou a falar pausando para dar uma tragada no cigarro, uma das longas– as pessoas– continuou– são como ovos que você compra no mercado. Eles vem em diferentes tamanhos e cores, mas por dentro são todos iguais, só gema e clara, o máximo que você pode esperar, é que estejam podres.
Ele disse tudo isso soltando a fumaça do cigarro na minha cara. Ele queria isso, queria que você respirasse suas palavras, que elas penetrassem seu pulmão e se fundissem ao seu sangue.
– Crianças bobas são felizes porque esperam que um pinto nasça um dia desses ovos. Quando elas desistem de esperar, quando entendem que um pinto nunca vai sair de um desses ovos, deixam de ser crianças e se tornam adultos.– ele apertava meu braço enquanto dizia tudo isso.
– A vida, meu filho, não é nada demais, não existe nenhuma grande surpresa na vida. Se quiser crescer e se tornar um homem, tem que aceitar isso, e quanto mais rápido aceitar, melhor. Você, meu filho, não é bobo, nem tem tempo de ser criança.
Foi dizendo essas coisas que meu pai me introduziu ao primeiro emprego.Fui engraxate, limpei banheiros, fiz muita coisa.
Trabalhei no turno noturno de uma fabrica. Voltava para casa as 4:30 da manhã. Devo dizer que eu não morava numa vizinhança muito segura, mas meu pai, ele nunca ligou.
“Morrer é apenas conseqüência de estar vivo” ele dizia.
Quando fiz 16 anos fugi de casa. Deixei meus irmãos com meu pai para que eles mesmos fugissem ao fazer seus 16 anos.
Não pensei mais em meu pai até que, quando completei 26 anos, meu filho nasceu.
Quando meu filho completou 6 anos, e ele mesmo pegou um ovo da geladeira e colocou num lugar quente para que um pintinho nascesse, eu andei 50 quilômetros de carro para conseguir comprar um ovo fecundado.
Eu não podia saber se o ovo estava realmente fecundado, então ficamos ambos ansiosos, ficamos assim por duas semanas até que o ovo chocou. Demos ao pintinho o nome de Polho.
Quando meu filho fez dez anos, eu mesmo tive que lhe ensinar uma lição.
– Filho, você precisa surpreender as pessoas, é isso que as faz viver. Você precisa dar surpresas boas a elas. Mostrar que pode haver alguma coisa a mais, e então, você mesmo vai encontrar essa coisa.– eu disse.
Motivado pelas minhas próprias palavras, quando recebi a carta do hospital, fui ver meu pai. Ele estava com câncer, era esperado.
Estava preso numa cama com um tubo enfiado no pescoço. Eles disseram ter feito tudo que dava para fazer, mas que logo ele morreria.
Ele não pareceu se surpreender ao me ver.
Contei a ele da minha vida, falei da minha mulher e do meu filho. Falei do ovo e de tudo que eu havia ensinado ao meu filho. Ele escutou tudo calado.
Eu não acreditava que pudesse falar naquelas condições.
Quando terminei, ele fez um sinal para que eu me aproximasse.
Quando cheguei perto ele falou bem ao meu ouvido, com a voz roca e pesada.
– Meu filho, nenhum pé de feijão que você planta no algodão vai crescer forte, a maioria não vive mais de 4 semanas.
Meu pai foi um filho da puta até o fim.

Muito bom.
Gosto dos seus textos.
Obrigado. Esse foi um texto feio que achei que devesse escrever. Gosto que goste
Aqui estou eu, meio tímida. Sempre devoro os textos de vários blogs e nunca me manifesto, impossível não se deleitar e te deixar um beijo com muito carinho, Luna. Você escreve com amor, amor pelas palavras, amor no geral que talvez nem saiba que exista dentro de ti. ♥
Bruna Karinny, aquela menina chatinha que te paparica.
Obrigado Bruna
♥
Eu tenho que me por em dia com a leitura dos blogs que acompanho, inclusive o seu, embora você tenha dado um tempo na escrita…
Mas ainda é uma das minhas preferidas.
Beijo Beijo.
Oi. Sou nova neste mundo de blogs, ou seja, bem leiga, mas sei do que gosto de ler e escrever, e este é o tipo de história que não tem como eu ler e não dizer como ficou legal. Realmente gostei, aliais gostei de tudo que li até agora no blog.
Que bom que tenha gostado.
Bem vinda à esse mundo. Eventualmente darei uma olhada em seu blog. Vamos ver como se sai.
Gostei muito do seu blog e da sua escrita!.Em especial desse conto.Infelizmente rolou uma pequena identificação…
Vou passar a acompanhar suas postagens!
Ah esse é o meu blog: http://mardeletras2010.blogspot.com/
Ficarei feliz com a sua visita!