O texto possui conteúdo sexual, violência e linguagem que pode ser considerada ofensiva.
Cassandra não podia ficar sozinha. Nas últimas seis semanas dividiu seu esforço entre duas coisas. Primeiro, evitar portas abertas, espelhos, janelas, gavetas, qualquer fresta por onde ele pudesse entrar. Em segundo lugar, Cassandra se esforçava para ter sempre alguém por perto. Ia para o trabalho de carona com amigas, ou de táxi. Tomava café e almoçava com as amigas, que de certa forma já à evitavam por causa de seu comportamento obsessivo e de sua presença quase ininterrupta.
Na primeira semana conseguiu garantir um homem que à levasse para casa todos os dias, e conseguiu ser levada para a cama cada uma dessas noites. Depois disso o homem de alguma forma se cansou. Começava a gostar dela, mas suas manias, suas regras, seu desespero o assustaram. Não pôde aguentar. Cassandra então teve que passar a se ofereceu à todos os homens do escritório, no começo de forma sutil, sendo que no meio da terceira semana já era conhecida como transa fácil do escritório. A maluca que vai abrir as pernas pra você se você sorrir e piscar pra ela.
Os amigos se aconselhavam. Chegue nela e troque umas palavras, e você leva ela pra cama. Ela é capaz de implorar por isso. Finja que vai descarta-lá e ela vai lhe dar o melhor boquete, vai lhe oferecer a bunda, vai se abrir das mais diversas formas que você pode imaginar. Ela vai fazer tudo isso chorando, vai soluçar em meio ao orgasmo, então é melhor não ser muito sensível, assim você ignora isso e aproveita a transa.
Cassandra não podia ficar sozinha. Ela sabia de tudo isso. Foi a pessoa mais respeitável do escritório pelos 4 anos que ali trabalhou. As pessoas já se aproveitavam dela. Lhe pediam para fazer trabalhos que não lhe cabiam. Pediam ajudas aqui e ali, e ela, uma ótima pessoa, bem educada, sempre ajudava, sempre se sacrificava pelos outros.
A partir da quinta semana, mesmo os mais pervertidos homens do escritório pensavam duas vezes antes de se envolver com ela. Cassandra não comia bem. Normalmente já era bem magra, mas agora havia atingido um nível anoréxico. Não cuidava do cabelo, que se tornou quebradiço e embaraçado, e adquiriu uma tonalidade doente. Seu lábios estavam feridos, bolhas e cortes os cobriam.
As pessoas começaram a se preocupar. Seu chefe num primeiro momento tentou dispensa-lá, obriga-lá a ir buscar ajuda médica. Ela não quis, inventou desculpas, tentou conseguir inclusive um aumento de horário. Não queria ficar em casa, não queria ficar distante dos outros.
Por fim seu chefe aceitou ignorar sua aparência, mas à enviou para uma segunda divisão do escritório, uma com menos interação com os clientes. Uma com menos gente. Dave era o único naquela divisão fora Cassandra. Isso à deixou desesperada.
Ela seguia cada passo dele pelos labirintos de estantes e arquivos, nunca ficando a mais de quatro metros longe dele. Dave era um sujeito baixo, de óculos, um nerd perdido na empresa.
Mesmo ele não quis ter contato com ela.
Na sexta semana acabou, ninguém à quis.
Pensou em passar a primeira noite num bar, mas o ambiente a assustava. Os espelhos, o escuro, as garrafas, as pessoas. Não, um bar não era um bom lugar.
Contra todas suas expectativas foi para casa.
Acendeu todas as luzes, fechou todas as portas. Todos os espelhos e janelas da casa já estavam cobertos com grossos panos vermelhos.
Sentou-se num canto do quarto, coberta por um grosso lençol, de costas para a parede e de frente pra porta. Prestava atenção na fresta que havia entre a porta e o chão. As luzes de toda a casa estavam acessas, então qualquer movimento seria visto por ali.
Nada aconteceu. Passou a noite acordada.
Trabalhou normalmente, ninguém notou sua exaustão. Era algo esperado dela, ao menos nessas últimas semanas.
O segunda noite foi mais difícil.
Comprou estimulantes para aguentar a quarta noite. Não conseguiu se levantar para ir trabalhar. Era a primeira falta em anos.
“O problema de não dormir é que precisamos sonhar.”
Seus olhos estavam inchados, ardiam. Suas mãos tremiam. Os dentes rangiam com força.
“O sonho se força a existir então, ele adentra a realidade.”
Cassandra pensou ver uma sombra correr por debaixo da fresta da porta, ela tinha quase certeza de ter visto isso.
Espremeu as mãos, fazendo com que as unhas cravassem na carne. Começou a morder os lábios com força. Soluçava.
Ela já não aguentava mais.
Podia ver claramente uma bolha de ar se formar a cada respiração. Evitava inspirar uma vez que o ar parecia arranhar todo o caminho até o pulmão.
Seu estômago estava tão vazio que parecia dar um nó. Os roncos de fome doíam de tempos em tempos.
A sombra correu novamente pela fresta inferior da porta.
Cassandra desistiu.
Levantou-se com forças que ela não saberia explicar de onde tirou, caminhou até a porta lentamente, usando o cobertor como uma espécie de capa, e a abriu.
Não havia nada no corredor.
Apagou então a luz do corredor. Ficou um momento parada ao lado da porta, tentando ver algo e então voltou ao quarto.
Apagou também a luz do quarto e voltou ao mesmo lugar que estava no começo, de costas para a parede e de frente pra porta. Dessa vez ficou de pé, ainda que não de forma completamente ereta devido a falta de força em seus músculos.
Olhava atentamente o corredor escuro.
Não conseguia ver nada mais de dois metros além daquele corredor, mas sabia que alguém à observava do final daquela passagem.
O cansaço em seus olhos era tão grande que a escuridão ganhou vida e começou a se aproximar vagarosamente. A presença no final do corredor permanecia no mesmo lugar.
Apesar de já ter desistido, Cassandra continuava com medo. Tinha intenção de andar, caminhar para frente e acabar de vez com seu sofrimento, mas o medo lhe paralisava.
Fora o cobertor que usava como manto, estava completamente nua. Um gota de suor se formou em sua testa, apesar do frio, e percorreu um longo caminho, descendo até o pescoço, passando entre os seios, curvando e descendo pela lateral do corpo até as perna, caindo por fim no chão.
Quando conseguiu recuperar o movimento, o quarto já estava completamente escuro aos seus olhos. Tentou tatear algo a sua frente. Dava pequenos passos tortos para frente. Caminhava no breu total. Não escutava nada. Sua respiração parecia ser a unica coisa quente no quarto.
Engoliu uma gosma estranha que estava na sua boca o dia todo. Ela desceu tortuosamente por sua garganta fazendo com que começasse a tossir.
Parou de andar por fim.
Jogou o cobertor, pra trás e colocou as duas mãos pra frente.
Cassandra balbuciava silabas soltas, sem significado, se esforçava para buscar algum sentido.
“Eu..não..eu já não aguento mais.”
“Eu…desisto.”
“Eu..sou sua…só sua. Pode vir me pegar.”
Sentiu uma mão tocar-lhe delicadamente o queixo, fazendo-a erguer o rosto. A mão esquerda de Cassandra se encontrou com uma mão delicada, porem firme. Seus dedos se entrelaçaram.
Ela não enxergava nada, mas sabia que ele à olhava diretamente nos olhos. Sentia uma contração nos músculos das pernas, não conseguia mais se mover.
Por algum motivo, apesar de não enxergar nada, Cassandra fechou os olhos com força, como se esperasse levar um soco.
“É triste que tenha se destruído tanto enquanto fugia de mim. Você costumava ser uma moça linda.”
Sentiu lábios frios tocarem o seu rosto.
“Uma das mais lindas que já vi. Eu não conseguia me impedir de lhe procurar. A cada fresta, a cada oportunidade eu tinha que ver você, eu tinha que observá-la.”
A mão que tocava seu queixo desceu para o seio direito e começou a acaricia-lo.
“Antes de você me perceber era tudo mais simples, eu podia ficar a noite toda observando você dormir.”
A mão esquerda dela era pressionada com força. Sentia o prazer das caricias no seio, e uma dor forte na mão. Além disso sentia medo, um gosto amargo na boca. O lugar em que havia sido beijada latejava.
A mão beliscou-lhe o mamilo e então lhe apertou forte a cintura.
“Claro que a culpa foi minha no final, eu não pude me controlar. “
Apesar de permanecer com os olhos fechados, ela teve a súbita certeza de que se abrisse os olhos poderia vê-lo claramente diante dela. Não quis fazer isso.
“Sabe quando perdi o controle?”
A mão soltou sua cintura e a tocou entre as pernas.
“Você deixou a porta do banheiro aberta, e eu pude ver através do reflexo no espelho, você estava se masturbando deitada na cama. Tão inesperado para uma graça para você.”
Os dedos lhe tocavam fundo.
“Tive que acompanhá-la em sua diversão.”
Ela ainda não sabia se sentia prazer ou dor. O medo deixa as coisas confusas.
“Não pude me controlar então. Passei a me descuidar. Deixei você me perceber.”
Ela apertou os olhos mais forte, como se pudesse fechá-los ainda mais.
“Eu não sei como me pareço para você, mas sei que pareço a coisa que você mais tem medo.”
Ele beijou os lábios dela, forçou-a a abrir a boca e meteu a língua lá dentro.
Ela desistiu de reagir.
Retribuiu o beijo. Estendeu sua mão livre para frente tocando algo que lhe parecia um pênis ereto. O acariciou.
Os toques dele se tornaram mais íntimos. Mais suaves, prazerosos.
Ele a empurrou contra a parede e beijando-a a penetrou. Ela o envolveu com seus braços. Fizeram sexo violentamente. Os beijos dele lhe marcavam o corpo. O pênis dele dentro do corpo dela era gelado como aço.
Ela não soluçou ou chorou dessa vez. Ela conseguiu aproveitar.
Gozaram juntos, e ela não se soltou do corpo dele depois disso, continuou abraçada.
“Querida, abra os olhos, quero que olhe para mim, me diga com quem eu pareço.”
Ela sabia o que ia ver. Ainda assim, quando abriu os olhos, um raio percorreu seu corpo. Ela via tudo perfeitamente. Cada detalhe. Tremeu.
“Você parece meu pai. Ele me forçava a fazer todas essas coisas que você fez comigo.”
O rosto dele era um rosto cheio de ódio. Ainda assim, nos olhos, ela conseguiu ver tristeza.
Ele fechou os olhos e quebrou o pescoço dela.
Voltou para a escuridão. Estava chorando.
Sabia que não havia lugar para ele no mundo. Não havia nada que ele pudesse cativar no mundo.


UOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOU. Parabéns, ótimo texto. Não ia conseguir dormir se não tivesse lido até o fim. :]
Muito Obrigado. Fico feliz que tenha gostado =)
Muito interessante, confesso que o que me chamou a atenção para ler seu texto foi a nota em vermelho, mas me envolveu de uma forma impressionante. Mesmo sendo um pouco extenso nao consegui parar de ler.
Parabéns!
Coloquei a nota em vermelho, mais porque o texto não corre dentro do estilo típico de texto do blog.
É realmente bom quando um texto é lido de forma fluida sem ser cansativo. É bom que esse texto lhe tenha sido assim.
Obrigado!