Alice


A cozinha hoje parecia mais suja que o normal, os moveis cinzas espalhados, as janelas manchadas e cheias da fuligem que não permitia a entrada de quase nenhuma da luz daquela manhã, dando ao ambiente um tom fosco. A chaleira esquentava no fogo baixo lentamente, de modo que quase não podia ser percebida.

O piso de madeira velha rangeu com os passos de Maia enquanto ela cambaleava do quarto para a cozinha. Estava descabelada e com a mesma roupa do dia anterior, agora toda amarrotada. O efeito da bebedeira agora doía em sua cabeça. As imagens insistiam pela não estaticidade, uma somatória da ressaca, e do desconforto natural dos primeiros momentos do dia.

Ainda assim, apesar de sua visão turva e dos olhos inchados,  conseguiu identificar bem a imagem de Alice, sentada a mesa, quando chegou a cozinha.

– Estou atrasada porra. Por que você não me acordou?– disse se esforçando para ver melhor a imagem de Alice.

De certa forma conseguiu. Ainda tinha a percepção de que tudo no ambiente estava se movendo, mas a imagem de Alice parou. Podia identificar bem seu rosto angelical, envolvido por um corte de cabelo curto. Podia traçar a linha de suas sobrancelhas finas, mesmo naquele estado, e apreciar os bonitos dentes da jovem.

– Não está. Ontem você me avisou que seu padrão abriria a loja mais tarde hoje. Preferi lhe deixar dormindo mais um pouco.– ela disse sorrindo– Logo, logo eu iria lhe acordar.

Um prato de vidro azul estava a sua frente na mesa, nele, meio pão francês mal comido. Ali ao lado, uma caneca com o desenho de uma vaca feliz. Numa das mãos, Alice brincava com alguma coisa pequena.

–Hum– Maia olhou então para um relógio branco e grande acima  de uma porta.– Tenho mais uns 40 minutos então.

Caminhou até as prateleiras e de dentro de um pote com uma amigável imagem de biscoitos retirou um maço de cigarros. Acendeu um dos cigarros logo ali no fogo do fogão e sentou-se no chão próxima à parede e de frente para Alice.

– As cadeiras estão todas podres, mas elas agüentam o seu peso, Mai.– disse Alice enquanto apoiava os dois cotovelos na mesa e colocava uma das mãos no rosto.

Maia sorriu. Sabia que incomodava Alice com a fumaça de seu cigarro, sabia que ela nunca assumiria isso também.

– Eu gosto de ficar aqui, me dá uma boa visão de você.– Maia disse antes de dar a primeira tragada do seu cigarro.– Ah Jesus, isso é bom pra caralho.– comentou soltando a fumaça.

Seus sentidos já voltavam ao seu normal. Sua dor de cabeça diminuía, e, depois de fechar os olhos por alguns segundos, já tinha sua visão normal ao abri-los. Notou uma pequena pílula verde e branca na mão de Alice. Ela brincava girando e girando a pílula, equilibrando ela na ponta do indicador, e girando e girando mais.

– Não vai tomar logo isso?– perguntou finalmente.

– Não.– ela respondeu virando o rosto pro fogão– Eu tenho que tomar ela depois de ter comido algo, e só vou comer o resto desse pão quando a água ferver e tivermos algo pra beber.

– Eu tenho que arrumar alguém pra concertar as bocas desse fogão, nessa velocidade não vamos beber isso nunca.

Alice continuava brincando com a pílula colorida.

– Um amigo da faculdade me falou que se você quiser se matar tomando isso você tem que tomar um número certo, nem muito mais nem muito menos.– Alice falou, segurando o remédio com o indicador e o polegar. – Ele disse que eles colocam uma substancia nesses remédios, que quando numa concentração correta induz vomito. Você vomita tudo e não morre, só fica desmaiada no chão, ai alguém aparece e te leva pra uma instituição qualquer onde você não pode tentar de novo.

– Quem te disse isso?– perguntou Maia séria.

– O Marcos. Ele também me disse que eles enfiam um monte de tubos na sua bunda e retiram todo o resto do remédio de lá.

– Ele é um retardado. Alguém acabaria morrendo engasgado com o próprio vomito e processariam a indústria farmacêutica.

Alice virou o rosto e olhou para janela como se pudesse ver algo além dela.

– É Mai, você deve estar certa, o Marcos não tira mesmo boas notas, ele não me parece muito esperto.

Maia deu uma tragada forte no seu cigarro, e prendeu a fumaça por um longo período de segundos. Quando a soltou, a fumaça pareceu formar uma parede entre ela e Alice.

– Sete pílulas dessa e você morre. Com 3 e um saco plástico amarrado na cabeça você consegue o mesmo efeito, mas 7 são morte garantida para alguém do seu peso.– disse Maia por detrás da parede de fumaça.

No mesmo momento a chaleira começou a apitar.

Maia apagou então seu cigarro no chão, e se levantou. Caminhou até o fogão e pegou a chaleira, derramando em seguida a água fervente na caneca de Alice, e numa outra caneca já deixada sobre a mesa, ambas já com folhas de hortelã

– Não tome seu chá agora, deixe infundir por um tempo.

– Isso não é chá. A Patrícia me disse que uma bebida só é chá quando ela é feita de folhas de chá. Quando é feita de qualquer outro tipo de folha é apenas uma infusão.– ela disse olhando para Mai– A Patrícia sim tira boas notas.– falou depois de mais uns instantes, tentando adicionar confiabilidade à informação.

Maia colocou então a chaleira novamente sobre o fogão e se inclinou por trás da cadeira de Alice, deixando sua boca próximo ao ouvido dela. Uma de suas mãos entrou por debaixo da camisa de Alice, subindo gentilmente pela sua barriga até chegar à um dos seios que ela se pós a acariciar.

– Então, quer se divertir enquanto esperamos por nossa infusão?– perguntou ela sussurrando ao ouvido de Alice.

– Desculpa Mai, não estou com vontade agora.– Alice respondeu, se virando para Maia.

Beijaram-se por um curto período de tempo enquanto Maia retirava sua mão de baixo da camisa da parceira.

– Quando eu chegar do trabalho então.– disse ela contornando a mesa e se sentando oposta à Alice.

Alice apenas sinalizou que sim com a cabeça.

Fizeram a refeição matinal sem falar mais nada.

Maia tomou banho e se arrumou para o trabalho e quando ia sair, percebeu que Alice permanecia sentada na mesa da cozinha brincando com a mesma pílula.

– Alice, toma logo essa merda.– ela falou parada em frente a porta da saída.

Alice prontamente a pós na boca e engoliu.

Maia se virou para sair, mas no ultimo momento virou-se novamente para Alice.

– Alice, desculpa por tudo isso. Você merecia um lugar bem melhor que esse poço.

– Tudo bem Mai. Eu gosto de estar com você.– Alice falou pontuando com um sorriso.

Maia sorriu de volta. Olhou então para o chão sujo e novamente para Alice.

– Você vai estar aqui quando eu voltar?– Maia perguntou por fim um tanto receosa.

– Vou.– Alice respondeu instantaneamente.

– Lembre Alice, sete pílulas é garantia, se você precisar, sabe.

– Vamos transar quando você voltar.– Alice disse com mais um dos seus sorrisos

– Eu te amo.– disse Maia

– Te amo também.– respondeu Alice.

Maia saiu então para mais um dia de trabalho, apenas tendo certeza de duas coisas, de que amava Alice, e de que ela à amava de volta.

Era o suficiente para aguentar o dia…ao menos para ela.
Cigarro

6 thoughts on “Alice

  1. O amor convém muito bem para aguentar mais um dia, senão para aguentar a todos. Ele é a única coisa que faz valer a pena.
    Não achei confuso, achei perfeito.
    Eu sei que já lhe disse isso, mas queria deixar registrado.
    Te amo.

  2. Aliás o nome “Maia” já é tão pequeno, por que tinha que criar um apelido ridículo só para forçar a intimidade?
    =3

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